2 de julho de 2019

Não quero que se orgulhem da "filha"

A minha mãe acabou de me sugerir que levassemos cartazes matching para a marcha lgbt+ do Porto, a dizer "Orgulho-me da minha mãe" e "Orgulho-me da minha filha". A ideia é linda e realmente reforça o facto de que tenho o apoio dela, o que não devia ter nada de especial mas ainda tem, dada a quantidade de gente que tem pais que rejeitam os filhos de alguma forma pelo que são. Mas no nosso caso, eu não acho que os cartazes sejam adequados e não sei como lhe dizer isso. Há 3 razões: a primeira é uma razão menor e só uma implicação com o número de significados da palavra orgulho neste contexto, a segunda até me fez chorar quando a escrevi nas morning pages, e a terceira estou demasiado cansade para elaborar muito porque não me parece haver solução possível para a contornar. 

1) Dizer que me orgulho da minha mãe pode passar a ideia de que ela é mais do que uma aliada. E eu não acho que ela se importasse em ser vista como lgbt+... mas, por um lado, apaga o facto de que há mesmo relações em que tanto os pais como os filhos são lgbt+ e, por outro, não acho justo pessoas cis-het se apropriarem das experiências de pessoas lgbt+ só quando lhes apetece e estão num contexto em que "é fixe" ser visto como tal, como é o caso da marcha.

2) Não é verdade que me orgulhe dela neste aspeto. Orgulho-me dela em mts coisas - especialmente pela sua força e pela maneira como luta à sua maneira contra as noções completamente falsas que outras pessoas têm dela - mas não da maneira como lida com uestões lgbt+. Na verdade, ela já lida com essas coisas muito bem, compreende mais do que eu alguma vez esperaria que ela compreendesse após a reação inicial, e não positiva, que teve ao meu comingo out, e a maneira como ela encara tudo como radical (mesmo quando afirma que é natural, nota-se que há algo nela que ainda diz isso com demasiada intensidade) tem a ver com a personalidade dela, que transmite sempre demasiada emoção com tudo: até a elogiar os meus desenhos ela faz um filme que parece que está em choque, em comparação com a reação de todas as outras pessoas xD Então no fundo, no fundo, quase já não há problema nenhum. O problema acaba por ser eu, que tinha esperado demasiado dela e tive as minhas expectativas arrasadas quando ela soube que eu era bi, de tal maneira que isso afetou completamente a maneira como eu interagia com ela. Desde essa altura, sinto que nunca mais consegui falar com ela da mesma maneira, nem transmitir a minha perspetiva... porque eu simplesmente nao consigo falar. Ela própria parece tentar trazer os temas à baila e seriam a situação perfeita para eu poder acrescentar as minhas opiniões ou conhecimento, mas parece sempre que tenho alguma coisa entalada na garganta e nunca acrescento nada, e se o fizer, vai ser porque já não consigo acumular mais nada e vou explodir e deixar toda a gente chateada. O meu coming out criou uma barreira entre nós, de que ironicamente ela nem parece aperceber-se, mas para mim é impossível de ultrapassar. E eu podia até fazer o esforço de recuperar o que tinha mas... sicneramente, eu nunca vou concordar em que se espere mais esforço da pessoa que foi magoada do que da pessoa que magoou - mesmo que ambas lamentem o que que perdeu - e portanto não acho correto abrir uma exceção para mim. Ou o tempo cura isso, ou esta barreira fica para sempre. Não sou eu que tenho de fazer o trabalho de casa de a quebrar. E não consigo ter orgulho de uma pessoa que me deixou assim...

3) Eu não sou filha, nem filho. E como não há linguagem nenhuma em português capaz de captar que sou não-binárie, a não ser coisas inventadas e alvo de chacota, prefiro ao menos omitir que se confirme as mentiras que outras pessoas pensam de mim - no caso, a ideia de que sou rapariga. 

E com isto estou a considerar nem ir à marcha. É uma coisa linda, e este ano seria particularmente especial: fazem 50 anos desde os Stonewall Riots, que começou o movimento lgbt+ atual, e iria com mais amigos, fora que é o ano em que acabei a faculdade e era fixe celebrar nesse sentido também. Mas estou demasiado esgotade, a deprimir até, e estar no meio de tanta confusão, com pessoas que só estão lá pela festa mas que não percebem nada da maioria das identidades lgbt+, e não estar realmente a ser viste como pessoa não-binária num evento em que é suposto assumirmos e mostramos e sermos nós próprios... derrota um bocado os aspetos positivos. E começo a recear que vou sair de lá pior do que fui. Eu sei que, se não for, me vou arrepender, porque vou perder muita coisa. Mas acho mesmo que, indo, me vou arrepender também. Não acho que tenha ainda encontrado aquilo que quero, e preciso, e estou a começar a abrir mão das coisas que não valem 100% a pena. Também acho que tenho demasiadas coisas a resolver comigo para poder assumir o que quer que seja, a única coisa que eu mostraria era uma rapariga, e felicidade falsa. 

Só me falta ver os dois ultimos eps de supergirl e a Alex disse que chorou ao vê-los. Eu achava que não ia chorar, mas neste estado é provável...

7 de junho de 2019

Abusive parenting

Eu sei que não vou ter filhos, mas gostava de adotar, acima de tudo pq sei que daria uma educação de qualidade. Em termos de valores, principalmente. E isso incluiria nunca bater às crianças. Bater nem sequer faz sentido! Se a criança for nova demais para compreender as coisas, bater só fará com que ela adquira medo dos pais e fique com receio de explorar, n vá isso resultar em que lhe batam. Se tiver idade para perceber o que lhe dizem, então mais vale explicar onde é que errou, em vez de fazer obedecer por medo... E se a criança não fez nada de errado e o pais só estavam a descontar pelo seu mau humor, pior ainda.

Eu lembrei-me disto pq me vieram à cabeça, sem nenhuma razão, episódios em que a minha mãe me bateu. Ainda por cima, ela batia sempre por coisas menores que normalmente não eram um problema, exceto se ela estivesse de mau humor, com sono ou fome, e eu lembro-me que doía bem. Não eram só palmadas. Eram bater com a minha cabeça na parede, bater-me na cara, bater-me com o chinela ou com a mão com imensa força, arrancar-me cabelos pela raiz, enquanto me encurralava contra as paredes ou contra o chão para eu não poder fugir, o que é ainda mais uma forma de mostrar que dominava através da força bruta e de incutir medo. Caralho, eu sei o que é raiva, mas mesmo que eu até desejasse a morte de alguém, isso não me daria o direito de ser o carrasco. Se alguma vez destruí coisas enquanto estava stressade e irritade, foram coisas minhas, e nunca ameacei nem bati em ninguém. Já a minha mãe chegou a ameaçar-me de me atirar com facas, com panelas de água a ferver e rachar-me a cabeça, e ela parece tão descontrolada quando está nesse estado, que eu quase acreditava e tinha de me calar - mesmo não estando a fazer nada que alguma vez tenha considerado errado. Eu juro que se me pedissem para explicar porquê que a minha mãe alguma vez me bateu, eu não saberia dizer uma única causa.

Eu já sabia que isto era uma coisa que me perturbava, mas não estava à espera de ter tanto a dizer sobre o assunto...

O pior é que ela ainda fazia gaslighting. Dizia sempre, depois de ameaçar que ainda me matava se eu não me calasse/parasse, que se mataria a si própria a seguir, e a culpa disso tudo seria minha, porque a provoquei. Isso é mesmo abusivo e victim-blaming, exatamente as coisas que maridos violentos dizem quando batem às mulheres, culpando-as por eles se terem descontrolado, e o pior é que nem descontrolados estão pois, se estivessem, as suas próprias coisas também seriam alvo de violência, em vez de serem só as coisas das mulheres e as próprias. Não, pessoas que clamam estar descontroladas por culpa de alguém quase sempre estão perfeitamente cientes do que as rodeia e só estão a ser manipulativas, mesmo que inconscientemente. E quase consegue ser cómico como tantas mulheres perpetuam, ao "educar" os filhos, a mesma violência que é usada contra elas e de que tanto se queixam.

Além disso, das vezes em que tentei falar com ela sobre o assunto, ela reage de forma defensiva, ou fica toda indignada, ou ri-se qd eu tento explicar porquê que não se deve bater aos filhos, ou volta a virar tudo contra mim e a repetir a lenga-lenga de que eu a tiro do sério, e quando dou por ela já está a falar por cima de mim e se eu tentar fazer-me ouvir elevando a voz, porque ela não faz pausas para me permitir responder, começa a dizer que eu estou a berrar como uma cabra, sendo que a voz dela normal já é quase mais elevada que a minha, mesmo que eu estivesse a gritar.

Não devia poder ficar pior, mas pode: A bea aprendeu essas táticas abusivas com a minha mãe e com o Paulo, e como sabe que é mais forte que eu e eu nunca lhe bateria (por um ldo por não ter força e porque se o fizesse a minha mãe ia dizer que eu tinha perdido a razão e se calhar ainda me batia por cima quando soubesse),  tb me ameaça bater quando a minha mãe não está só por eu lhe dizer alguma coisa que não lhe está a agradar ouvir, e insiste que vai fazer o que quiser com as minhas coisas.

Uma das coisas que sempre achei irónicas - e tenho memórias tanto disto, como de achar isto, desde que tenho pelo menos 5 ou 6 anos - é que, depois de a minha mãe me bater e eu passar horas no quarto a berrar e a chorar (enquanto oiço que se não parar de chorar ainda levo outra vez e que só faço escândalos que os vizinhos estão a ouvir)... a minha mãe levava-me sempre chá e tentava falar comigo. Era basicamente o pedido de desculpas dela. E se alguma vez chegassemos a concordar sobre alguma coisa que eu estivesse a tentar dizer antes porque finalmente ela se dispôs a ouvir-me - o que era raro, porque que me lembre, lá está, não havia razão nenhuma nem assunto nenhum para ela me bater, ela simplesmente queria-me calada e queria descontar o stresse em alguém - isso podia ter sido tudo discutido antes. Porquê bater-me primeiro e discutir depois? Não faz sentido. Além disso, eu nunca a desculpei realmente. Mesmo quando ela vinha falar comigo e eu falava calmamente e bebia o chá e tal - que tinha quase sempre propriedades calmantes segundo ela, como se fosse eu que precisava de me controlar - eu nunca a desculpei realmente. Eu só fingia - e continuo a fingir - que alguma vez desculpei. Que mais podia fazer? Não desculpar e mostrar isso não faria diferença nenhuma, ela poderia continuar a bater-me se quisesse, além de que eu não tinha energia para mais coisas que ela pudesse entender como provocação. Uma coisa é certa, não se como é que pessoas adultas às vezes têm de passar por imensos ciclos de abuso até entender que alguém é realmente abusivo e que a culpa não é sua, eu acho que conseguia entender isso mal comecei a ter senso de mim próprie, embora não tivesse palavras para descrever isso.

Não tenho mais nada a dizer.
Cha e n desculpar, perceber que e abusivo desde sempre

18 de abril de 2019

Então... Sobre a catedral de Notre Dame que ardeu, eu tenho visto dois tipos de posts: Posts que lamentam a perda da catedral e divulgam os esforços feitos no sentido de estudar o que aconteceu e recuperá-la, e posts que condenam o dinheiro investido na recuperação e a forma como esta desgraça está a receber muito mais atenção que outros problemas mundiais que deviam ser prioritários.

E eu devia estar a acabar um trabalho de faculdade, mas decidi partilhar os mixed feelings que tenho por ambas as opiniões, até porque acho que é uma posição digna (não diria neutra, mas também não é nenhuma das anteriores). Para que conste, eu tenho noção de que não sei tudo e agradeço quem puder acrescentar mais nuances e informação a todas as coisas que digo (aceito links para ler), quem em concordância ou a discordar:

1 - É obviamente verdade que questões como a fome, a segurança e o património de outros países deviam ser prioridades. Isto dito,

a) O facto de se estar a mover fundos para reconstruir a catedral não rouba o dinheiro que podia ser dedicado a essas causas. Se não houve mobilização nesse sentido, é porque as pessoas/governos não querem/podem contribuir, não porque estejam tão tesos que têm de decidir se vale mais o património da França ou pessoas a morrer de fome

b) Falar da fome em África não me parece ser a melhor maneira de passar o argumento de que as prioridades dos governos estão trocadas, sinceramente. Há vários impedimentos à interferência de governos entre-países, e o que aconteceu na França... seria melhor confrontado com a pobreza no próprio país

c) Há de facto vários casos de património que ardeu noutros países - incluindo catedrais - que nem sequer ficaram conhecidos, e sem dúvida parte das razões é a forma como os países em questão são considerados "menos importantes". Por sua vez, isso está relacionado com um afastamento cultural e com falta de representatividade e de contacto. Mas comparativamente, as catedrais que foram alvo de desastres (pelo menos as que vi mencionadas) representam perdas muito menores que a de Notre Dame, e não é preciso muito para além de uma comparação visual. De certeza que são importantes para as suas populações, e é esta insistência em renegá-las para um patamar de desimportância que mantém esses países longe de oportunidades para florescer. Mas, embora eu pudesse aceitar que alguém argumentasse que todos os países deviam receber igual atenção e apoio, não apoio que digam que Notre Dame não tenha importância nenhuma nem que seja indigna de recuperação. [Mais nos pontos seguintes]

2 - Muitas das pessoas que reclamam pelos contributos destinados à recuperação de Notre Dame nada fazem na direção de apoiar as causas que supostamente defendem. De facto, muitas das pessoas que reclamam parecem nunca ter presente na mente que esses gravíssimos problemas mundiais existem sequer, a não ser quando lhes convém lavar as mãos por não contribuirem para as causas a seu alcance. Ora...

a) Não digo que a carapuça sirva a toda a gente, e compreendo na perfeição a quase impotência perante causas mundiais tão grandes e enraizadas nas sociedades em que são encontradas (como... meio segundo para adivinhar...: a fome em África! yay, acertaram!).

b) Isto dito, muitas pessoas que contribuem para uma causa contribuem para outras - até porque quem tem dinheiro só não o aplica devidamente se não quiser e/ou não tiver consciência

c) Esta é realmente uma estratégia utilizada para as pessoas se livrarem das suas responsabilidades, consciente ou inconscientemente. De facto, trazer à baila a fome em África tornou-se o exemplo mais comum do que as pessoas dizem para evitar contribuirem de forma positiva para o mundo. Ao mencionar um problema demasiado complexo para ser solucionado por nós, ou mesmo por um conjunto de pessoas, isso está ao mesmo tempo a apelar à pena, a diminuir todos os restantes problemas por comparação com o mencionado, e a justificar o porquê de não se estar a fazer nada quanto a isso.

3 - Tenho visto gente chamar a catedral de Notre Dame de "bem material", reduzindo-a a algo no mesmo nível de um carro, uma cadeira,... quase insinuando que preocupar-se com a catedral é uma preocupação de rico e inteiramente capitalista.

a) Não é que a fama e o capitalismo não venham à baila, mas símbolos não são bens materiais. E a catedral era um símbolo poderoso em muitos sentidos: era um símbolo religioso, cultural, histórico, patrimonial, literário, artístico, talvez mesmo exotérico e outros que me escapam. A forma como tanta gente tem falado dela deixa-me abismade com tanta ignorância, e não creio que isso seja classismo da minha parte, pois a maioria das pessoas que vi dizerem isso são pessoas com tantos estudos como eu - quem não os tem, dá para perdoar.

b) Mas após a recuperação, aí sim, acho que será aceitável chamá-la de bem material, da mesma forma (mentira, no caso da catedral é muito mais significativo) que se os meus desenhos ardessem e alguém se oferecesse para os reproduzir sem a menor diferença instantaneamente (vamos supor que é possível por propósitos de argumentação), não teriam o mínimo de valor para mim, pois todos os meus sentimentos, pensamentos, esforço e tempo dedicado teriam sido perdidos. E isso não se recupera. Arte não se recupera, nem se sara a ferida que fica nas pessoas que a perdem. Acrescentando ao facto de perder arte todo o significado que se perdeu com ela, não posso aceitar ver pessoas insultar de tal maneira o que se perdeu.

c) Vale vidas? Não, não vale. Mas foi construída por vidas, e isso também não deve ser desprezado. Se se preocupam tanto com bens materiais, dispensem os carrinhos e esse tipo de coisa. Acham a comparação injusta? Pois, então é adequada.

Ok, acho que era tudo. Talvez venha a editar o post se vir mais argumentos


4 de fevereiro de 2019

Sucesso

Uma vez na escola, no 9º ano, tive de fazer um texto argumentativo a opinar sobre o facto de naquele ano se ter decidio que alunos de dado ano teriam exames. Eu fui contra, pois nunca fui fã de avaliaçoes, julgamentos, pressoes e competiçao. Mas mais tarde a minha stora comentou que apoiava pk isso preparava melhor os alunos, e eu tinha de compreender a sua posiçao.

Se a função da escola fosse ensinar, avaliaçoes seriam algo completamente estupido, que so serviria para criar pressao, para alunos compararem o seu valor com o dos colegas, e para stressar com estudo ou com a culpa de n ter estudado. Mas o papel da escola é preparar os alunos para o sistema.

n acho que seja sequer uma boa forma de preparar, quando uma pessoa precisar de algo, aprende a fazer - o meu pai sempre acho que a minha escola primaria me estava a preparar mt mal e que eu sentiria uma mudança demasiado drastica qd mudasse de escola, ao ponto de deixar de ser boa aluna. Embora eu tenha sentido essa mudança, continuei a ser melhor aluna, pois foi só adaptar-me. Uma pessoa consegue sempre fazer melhor se assim quiser. Criar mais dificuldades no caminho para preparar a pessoa para a dificuldade da etapa final nao faz qualquer sentido - a unica coisa que isso faz é com que a dificuldade final seja experienciada mais cedo. E até que ponto é benéfico deixar uma pessoa já cansada e aborrecida quando for aproveitar a etapa final? No caso, como é que poderia ter sido melhor eu ter uma escola primária rigorosa, que tivesse matado a minha criatividade nos primeiros anos como os anos restantes fizeram? Se tivesse tipo uma escola assim, as unicas diferenças seriam que o meu esgotamento se viria a acumular ha mais anos e nunca teria descoberto o meu gosto e jeito para coisas criativas, como desenhar, pois n teria tido tempo para explorar essas habilidades. Ha de facto situaçoes em que da jeito uma pessoa enfrentar as dificuldades antecipadamente - mas sao situaçoes de competiçao: se eu fosse a um concurso de algo, n convinha experimentar as dificuldades apenas nessa hora, convinha que as minimizasse ao maximo para ter mais chances contra os concorrentes. 

Todo o proposito das avaliaçoes, da preparaçao... so faz sentido dado o nosso sistema. Entao eu n culpo a escola nem o sistema de ensino, mas sim o sistema e a forma como tudo está interligado. Num sistema em que sucesso fosse medido pela felicidade das pessoas, sero melhor n teria de ser um criterio para garantir essa felicidade, nem um meio intermedio para garantir condiçoes minimas financeiras e afins que poderiam ser as provocadoras de felicidade. Uma pessoa podia ser feliz por estar constantemente a aprender, comparando-se nao com os outros, mas com o que sabia antes. Ou podia ficar feliz por ser a pior pessoa entre varias numa dada área, pois isso significava que tinha imenso espaço para crescer e a perspetiva dessa jornada entusiasmava-a, e porque isso implicava que poderia aprender algo com todas as pessoas que a rodeavam - pois, no fundo, isso n faria realmente dela a pior, apenas era a pior naquele grupo e isso n contava para lhe barrar o caminho as condiçoes minimas nem levava a julgamentos, pois toda a gente estava ali para aprender. Uma pessoa podia ser feliz por cultivar os seus legumes biologicos e passar o tempo com pessoas que lhe eram queridas, ou por ler mts livros, ou por criar arte... e conseguia atingir esses objetivos, porque n tinha de se matar para comer, ter uma casa, higiene, segurança. 

Se o sistema garantisse isso, só entrava no ambiente de competiçao quem quisesse. Da forma que está, mesmo quem n quer e n se sente feliz assim e obrigado a participar ou é fortemente prejudicado se n o fizer - e, o pior de tudo, é julgado pelo quao "bem sucedido" é num sistema do qual preferia nem fazer parte. As pessoas sao julgadas pelo quao bem se adaptam a um sistema de que n gosta, e ainda por nem sequer gostar. 

27 de dezembro de 2018

O insulto ao corpo lido como feminino

Eu as vezes penso que o corpo "feminino" é mesmo muito mal tratado pela sociedade. eu nem sei se me vou saber explicar, mas as vezes sinto que mesmo que deixasse de haver discriminaçao no sentido de sexismo, machismo e relacionados, a propria biologia continuaria a ser problema que bastasse. Eu acho que ouvi quase todas as mulheres que conheço dizer que gostavam de não ter o periodo, ou até que "gostavam de ter nascido homens" embora - e por isso n penso que se deva referir a elas no masculino nem como homens trans, dado que o comentario é originado por razoes distintas - nao queriam realmente ser vistas como homens, referem-se apenas ao corpo. já nem estou a considerar desvantagens como força e isso, que também são meh mas n são tanto uma fonte de incomodo e até sofrimento. não se compara ao período ou ao parto... 

MAS - e é esta é a parte que se relaciona com o tratamento da sociedade - a maneira como "mulheres" aprendem a lidar com o seu corpo ainda é aquilo que me custa ver. Não dá para controlar o corpo com que alguém nasce. Mas as coisas controláveis são uma merda: o facto de tantas pessoas serem educadas para esconder quando estão com o período como se isso fosse vergonhoso é ridículo; o facto de seios serem tratados como algo sexual - principalmente os mamilos, que homens tb têm - e provocatório quando mostrado é extremamente frustrante; as roupas são frequentemente mais desconfortáveis, expõe mais a pele, são mais transparentes, só estao disponiveis em tamanhos irrealistas ou são impraticas; apesar de já ser possível fazer operações para nunca engravidar, a idade mínima (25 fucking anos) e eventuais condições que outros países têm são mesmo insultuosas, infantilizam/desresponsabilizam a pessoa que quer fazer a operação e faz pressão para que alguém seja obrigado a ter filhos - aliás, esse é mesmo um requisito para fazer isso em alguns países, nós podes fazer a operação para não engravidar... se não engravidares e tiveres 2 filhos antes >.<; se uma pessoa tiver dores menstruais e for ao médico, eles em vez de analisarem o que se passa vão dizer que é normal e mts vezes o que se descobre anos dps é que as dores que a pessoa tinha não eram nada normais, mas como é vista como tal (até pk mts médicos acham que mulheres fazem sempre descrições exageradas), o problema de saúde (acho que é endometriose) piorou nesse espaço de tempo e tornou-se bem grave; se uma pessoa não se estiver a sentir mt bem quando está com o período não pod faltar ao trabalho/escola, nem sequer deixar de fazer educação física, porque "não é nenhuma doença" e nunca seria passada justificação médica por causa disso; por causa dos atributos físicos, o sexo feminino é visto como mais fraco apesar de mulheres serem obrigadas a manter a sua rotina, mts vezes idêntica à dos homens, mesmo enquanto sangram, têm o humor alterado e mts vezes dores; mulheres não costumam aprender sobre masturbação e ainda há imensa gente que acha que masturbação feminina é tabu e uma coisa vergonhosa; durante o parto as enfermeiras são monstruosas, e é durante o parto que muitas vezes é feita episiotomia (um corte entre a vagina e o anus para facilitar a passagem do bebé) às vezes sem necessidade, entre outras manobras que nem sempre se justificam porque as enfermeiras são monstruosas - acho que nenhuma mulher cresce sem ouvir que deve desconfiar de outras mulheres e que elas nos vão tentar fazer sofrer o máximo possível, nem que seja porque elas também passaram por esse sofrimento e vão querer descontar em alguém; anestesias dadas nunca são suficientes para evitar sentir dor, mas a dor é normalizada no corpo feminino; mulheres são envergonhadas e vistas como putas se andarem um bocado mais descobertas porque assim querem, mas a sociedade adora que se veja o corpo feminino sem a própria mulher querer - ou seja, adora sexualizar mulheres mas despreza mulheres que se sexualizam ou se sentem bem no próprio corpo ao ponto de não o querer esconder; exames invasivos são vistos como rotina; damn, há até algumas operações que só são autorizadas a homens trans que se calhar algumas mulheres poderiam querer, mas pura e simplesmente não é permitido às mulheres que tomem decisões acerca do próprio corpo, mt menos decisoes que as tornem "menos mulheres" aos olhos da sociedade - se fosse para aumentar as mamas ou coisa assim já seria permitido...

E se calhar ainda podia continuar a lista. É algo que me frustra imenso e cada vez sinto mais que uma das únicas razões pelas quais eu tenho interpretado o meu género como sendo mais feminino é a conexão que eu sinto com essa experiência toda que partilho com mulheres. (E com o facto de nem sempre dar para falar disto em público, ou porque é tabu, ou porque mt gente vai considerar drama feminista, sei lá... às vezes até porque outras mulheres são tratar como algo "normal" - enfim, experiência partilhada na mesma). Pk fora isso, eu para aí no ultimo ano só me senti mulher 2 vezes, e sei exatamente quando foram, portanto nem diria que o meu género é tão feminino como dantes pensava. Em todo o caso só queria resmungar. 



1 de novembro de 2018

Falsos ativistas interseccionais

Falsos ativistas interseccionais são aquelis que se posicionam a favor da inclusão total, mas na prática pisam certos direitos para conseguir aqueles que lhes interessam. São as pessoas que lutam para ter a cereja no topo do bolo, ignorando o facto de que outras pessoas nem bolo têm.

Aliás, isso nem seria um problema. Não vejo como problemático querer resolver mesmo os pequenos obstáculos que nos dizem respeito, até porque às vezes é mais fácil avançar começando com problemas menores. Correção ao primeiro parágrafo: falsos ativistas interseccionais são aquelis que lutam pela cereja no topo do bolo, cagando (as in, conscientes disso e mesmo assim seguindo com a decisão) para o facto de que isso irá custar o bolo de outras pessoas.


Esquecem-se que animais e a natureza também têm direitos

ou

Lutam pela proteção do planeta, mas ignoram que banir o plástico radicalmente irá literalmente matar as pessoas com deficiências que não podem recorrer a alternativas https://www.facebook.com/anilyan.leounear/posts/1719021878226308

ou

Afirmam que se deve dizer "todos e todas" em vez de "todxs/todes", porque senão as mulheres só seriam incluídas implicitamente - não lhes interessa que a primeira alternativa exclua EXPLICITAMENTE pessoas não-binárias, porque claaaaaaaro que isso não é nada comparado com estar incluído, ainda que "só" implicitamente

ou

Dizem que se devem respeitar pessoas de todas as orientações, mas se virem alguém com uma orientação menos conhecida, começam a falar sobre como a label dela é desnecessária

ou

Opõe-se ao racismo, mas só consideram problemas enfrentados por pessoas negras, acham que pessoas birraciais que são lidas como brancas não sofrem com racismo, etc...


São pessoas que criticam o privilégio das maiorias, mas não enxergam o seu, nem descentralizam o seu ativismo das próprias experiências. A hipocrisia é tanta que se torna cómica.

Basicamente, usam os direitos de certas pessoas como degraus para conquistar os seus, e ainda tentam ficar bem na fotografia como "mente-aberta, interseccionais, inclusivas". Com um bocado de sorte fazem isso de consciência limpa. E não é por ignorância, não - elas negam os direitos de algumas pessoas sob a premissa de "menos importantes" (mesmo quando são literalmente formas de reconhecer/preservar a existência dessas pessoas) no momento em que são confrontadas com tal.

Inclusão não é verdadeira se for conseguida à custa da exclusão das pessoas mais marginalizadas. Respeito condicional não é respeito (só interesse). Direitos "menos importantes" não existem (direitos são inerentes a todos os seres vivos deste planeta e não podem ser merecidos nem medidos).

Mas tudo isso seriam visões toleráveis numa pessoa que não considera que lutar por direitos é algo importante, ou com um acesso limitado à informação/educação. Em ativistas, especialmente nos que se autoproclamam interseccionais? Ridículo.

Metaforicamente, cuspo na cara de quem faz essa merda.



23 de outubro de 2018

Ser não-binárie é não existir. Nem legalmente, nem socialmente.

Praticamente em todos os minutos lembram-me que não existo - até eu me firo dessa maneira, de cada vez que me esqueço de usar adjetivos terminados em "e" ou outra forma de linguagem neutra em relação a mim, ou quando uso mas me sinto meh por "soar mal".

E contudo, se não existo, qual é o ponto de ter objetivos de vida? Quão gratificante é conquistar algo, se esse algo não é meu? Para quê trabalhar por um futuro que nunca será realmente meu? A pessoa que existe é uma farsa e está a roubar o meu futuro. Mentira, ela não tem culpa - a sociedade e o governo é que estão a roubar o meu futuro. 

Às vezes gostava de conhecer pouca gente por quem sinto apreço. Assim, não me sentiria prese a elas e podia simplesmente abandonar tudo, com sorte servindo de mártir para a causa trans não-binária, e roubando a minha contribuição para o governo que... eu ia dizer "que me mata", mas é mais irónico que isso: ele não pode ser responsabiliado por matar alguém que não existe. Até do crime se livra. 

E embora eu tenha bastantes certezas de que não me vou matar nunca porque sou uma pessoa positiva, até pensar nisso tem o seu quê de tragicómico, pois eu sei que se o fizesse, se o caso passasse nas notícias, provavelmente eu seria referide no feminino. A minha mãe lamentaria ter perdido a filha. Mesmo várias páginas lgbt+ não seriam capazes de usar tratamento neutro.

Pessoas não-binárias nem sequer a morte podem conquistar. Nem isso é nosso...

14 de outubro de 2018

Mensagem ao grupo que foi comigo ao Iberanime

Ok, eu só adicionei aqui o bruno pk ele esteve connosco ontem no iberanime, mas ele já sabe isto tudo que eu vou dizer xD Eu pensei em não mandar esta mensagem porque se calhar pode dar para o torto ou vcs podem não perceber, mas vamos ver como corre. 

Lembram-se de ontem terem constantemente dito coisas como "tu és rapariga" e assim? A questão é que não sou. Não, também não sou um homem trans. Sou uma pessoa não-binária, o que quer dizer que não sou estritamente de nehum dos géneros binários homem e mulher. Não tem nada a ver com questões biológicas, não sou intersexo - apenas quer dizer que, apesar de eu ser do sexo feminino, o meu género não coincide. Se vocês perceberem alguma coisa sobre questões trans, isso deve fazer um mínimo de sentido. Se não, eu não me importo de explicar melhor, só que não vai poder ser hoje porque tenho uma entrega de trabalho para acabar ^^

Eu basicamente só estou a dizer isto por esclarecimento e porque não gosto muito de ter de fingir que sou uma coisa que não sou, não é por ter ficado ofendide nem nada. Obviamente vocês não iam adivinhar, muito menos se não soubessem o que eram pessoas não-binárias ou se só tivessem ouvido falar disso em memes estúpidos. A outra razão é porque das próximas vezes que estiver à vossa beira eu não quero falar de mim no feminino mas sim de forma neutra, como acabei de fazer agora ao dizer "ofendide" em vez de "ofendida". É algo que tenho começado a fazer e já me basta não poder falar assim na faculdade e provavelmente quando for trabalhar. Acho que se percebe que a partir do momento em que se sabe que uma pessoa não é mulher não faz grande sentido continuar a tratá-la no feminino, mesmo que o tratamento neutro não exista oficialmente em português. Uso pronomes "elu/delu/...". Eu sei que muita gente utiliza o "x" ou "@" na terminação das palavras para as deixar neutras, mas como isso não é pronunciável nem dá para dizer mentalmente, eu sinceramente acho inútil. Continuo a usar artigos femininos à falta de melhor opção, e o mesmo vale para palavras que não dá para tornar neutras colocando "e" como terminação.

E isto não é tão relevante, mas já que é coming out time, também sou bi. Eu uso bi como "Atração por dois ou mais géneros", não só por homens e mulheres, até porque eu próprie sou uma pessoa não-binária. Até podia dizer que sou pan, mas prefiro a label bi por uma série de razões. E claro que não tinha de usar labels, mas para mim ter termos para explicar as coisas é bastante útil. 

Pronto, era isso. Por favor digam qualquer coisa e se tiverem dúvidas, perguntem :)

3 de outubro de 2018

basicamente eu como detesto usar pensos (+ sao um roubo + poluem o ambiente + é uma perda de tempo trocá-los + estão sempre a sair da parte das cuecas onde supostamente deviam estar colados), decidi que queria usar um copo menstrual, que é um copo de silicone que se põe na vagina, aguenta praticamente meio dia sem ser despejado, lavado e inserido outra vez e só tem vantagens. Ah, e dura 10 anos, então poupava imenso dinheiro. Só que eu n queria gastar dinheiro nisso - que tb n é mt barato e dps n pode ser usado por mais ninguém - sem saber se conseguia por, então decidi que queria tentar por tampões primeiro. Pedi à minha mãe para comprar e experimentei hoje. E estou mesmo frustrade, porque mesmo sendo dos mini - que supostamente até uma criancinha devia conseguir por - eu nem sequer o consegui inserir todo (e com o periodo supostamente a vagina ainda está mais lubrificada que o normal). E tipo, a minha mãe diz que é normal pk o algodão é uma coisa seca e ao forçar para entrar aquilo arranha as paredes todas, mas eu juro que n imaginava que fosse doer tanto a por - se calhar lá dentro nem doía, se estivesse bem colocado. Mesmo so da tentativa - e eu mal forcei, mal vi que n estava a funcionar desisti logo da ideia e percebi que n ia dar - ainda me está a doer. Eu não sei se isto é assim tão normal ou não, se é, não sei como é que outras pessoas usam. Então por um lado estou a sentir-me mesmo estupide e anormal, e por outro estou preocupade que possa haver algo de errado comigo - mas se há, eu só poderia descobrir isso num ginecologista e como vcs sabem eu n tenho grande vontade de ir a um. Principalmente sabendo que pode doer., e se já doi à maioria das pessoas, eu que nem consigo fazer isto acho que ia morrer de dores...

E eu nunca vos disse, mas um dos problemas que tenho com masturbação/vagina/etc (masturbação nem tanto porque por fora tb conta, mas still) é que de todas as vezes que eu tentava meter sequer um dedo, eu nem sequer inseria todo e já sentia que aleijava, então embora disforia seja uma das coisas que me deixa mais irritade com o corpo que tenho, esse medo - de que não estivesse tudo bem e ter de ir a um ginecologista (que me faria ter mais dores e mais disforia) OU estar tudo bem e eu ser ume anormal - também é grande parte do problema e grande parte da razão pela qual eu tentava sempre adiar ao máximo coisas deste tipo. Mas uma parte de mim sente que isso não pode contnuar assim e que tenho de fazer alguma coisa, embora na minha cabeça eu ache que faria isso mais por pressao social e por ter crescido com a ideia de que conseguir por wtv na vagina é normal e é estupido n o conseguir fazer.

Vá, e porque pode ser necessario usar um tampao ou ter de ir ao ginecologista e basicamente não há como fugir pense eu o que pensar, entao se calhar é mais facil meter na cabeça que vai ter de ser e acabou mesmo nao me sentindo nada confortável com isso nem fisicamente nem psicologicamente
olhem, eu n sei porque que vos faço aturar isto. tb n me sinto mt bem a falar-vos destas coisas, mas n consigo falar disto a mais ninguém

28 de setembro de 2018

Email que enviei a um professor da faculdade

Bom dia, professor.

Este email é sobre a aula de hoje às 8h10, à qual eu apenas compareci na primeira metade, e é precisamente sobre a razão de eu não ter comparecido à segunda. Eu não queria ser demasiado direte (a terminação em "e" é intencional, explico adiante), mas é tanta coisa para dizer que se eu não for imediatamente ao ponto nunca mais acabo de escrever. 

Embora eu considere as aulas de gestão importantes, eu não as irei frequentar se alguns pormenores continuarem como estão, pois esses pormenores dizem respeito a coisas que me afetam bastante. Embora perceber a matéria seja um meio para atingir a nota que quero, não acho que valha a pena sacrificar a minha saúde mental por causa disso. Considerando a cadeira que ensina, acho que vai compreender que é uma questão de prioridade de objetivos. A razão prende-se principalmente com a maneira como abordou certas questões sociais, nomeadamente em relação ao género. E não, eu não vou acusar o professor de ser sexista, homofóbico, transfóbico nem de nada que se assemelhe - até porque eu acredito que toda a gente tem um certo grau de preconceito internalizado, esses incluídos, e que não é justo apontar o dedo a pessoas que estão cientes de coisas diferentes - mas, pelo contrário, vou partir do princípio que não tinha a intenção de fazer ninguém sentir-se excluído e tentar sugerir maneiras de não excluir ninguém na prática. Nada do que eu vou criticar pode ser considerado "grave", mas são coisas com as quais lido tão constantemente que já não tenho energia para me sujeitar a elas voluntariamente - são como picadas de mosquito: só uma, pode não significar nada, mas uma infestação de mosquitos podia causar mensos problemas. Também espero que não encare isto como uma afronta e que saiba que eu não estou ofendide, estando até a considerar alguns dos conceitos mencionados em aula. Por exemplo, o dos marcadores somáticos (sinceramente, combater a influência deles é algo que eu tento fazer a tempo todo, tal como contribuir para que outras pessoas façam o mesmo) - mas é precisamente por consideração a isso e ao facto de que o professor também está sujeito a eles que estou a escrever este email. Não para que mude imediatamente a maneira como aborda esses assuntos sociais - até porque isso leva tempo - mas para pelo menos tomar consciência deles e questioná-los.  

Antes de tudo, vou esclarecer o quê que não é, de todo, um problema: menções a estudos ou a estatística. Lá porque coisas como género ou assim estão envolvidas, tenho uma certeza significativa de que isso não incomoda ninguém. Principalmente porque estatística tende a a apresentar valores específicos, não a generalizar. Dizer que há uma maior probabilidade (e indicar exatamente qual é) de homens terem mais acidentes de carro é consideravelmente diferente de dizer que homens são piores condutores - como deve ser óbvio.

Contudo, as coisas que foram comentadas acerca deles tinham alguns problemas:

Por um lado, sobre o estudo que dizia que Portugal era um país mais feminino, a maneira como os conceitos foram definidos em aula podia ter sido um bocado diferente. Claro que não podia fugir da definição estereotipada que foi considerada no estudo, e que era importante apresentá-la para nós compreendermos o resultado. Mas podia ter dito algo como "O estudo considerou a definição tradicional de feminino e masculino, que significa..." - algo que desse a entender que as caraterísticas incluídas na definição não são inerentementes masculinas nem femininas. 

O professor mencionou o exemplo onde a namorada disse que não gostava dos brincos oferecidos, e referiu como era possível isso ser uma indireta para o facto de mesmo gostando dos brincos, ela querer transmitir que havia algum outro problema. Sabendo disso e do quanto certas atitudes têm um significado menos aparente, pergunto-me se lhe terá ocorrido a possibilidade de o silêncio da maioria das raparigas querer transmitir que havia algum problema. Não sei o que cada uma delas pensa, mas o problema que mencionei no parágrafo anterior foi notado por várias - e, embora o professor tenha feito questões diretamente às alunas , estas sucediam-se a menções do que se entendia por masculino/feminino (como disse no parágrafo anterior), etc... foram muitas pequenas coisas, e quer alguma rapariga tivesse algo a acrescentar às questões feitas, quer não, nesse ponto a vontade de falar já não era muita. Obviamente, o silêncio não quererá sempre dizer que houve algum problema no que o professor disse - há sempre o fator da timidez e o medo de responder erradamente - mas é uma causa possível. 


Sobre o estudo da condução, eu não discordo propriamente da razão apontada pelos alunos - sobre como homens tendem a conduzir com menos cautela, com mais agressividade, etc... - enquanto UMA das razões possíveis, mas acho que foi desperdiçada a oportunidade de mencionar o papel da cultura na formação desses comportamentos, mesmo que o conceito estivesse destacado no slide. Mas eu queria aproveitar a dualidade homem/mulher que foi mencionada até aqui para dizer que... bem, não existem só homens e mulheres.

Eu não sei até que ponto o professor sabe alguma coisa sobre questões lgbt+ e se sabe o que são pessoas trans, portanto vou explicar o que são pelo sim pelo não: uma pessoa trans(género), ao contrário de uma pessoa cis(género), é uma pessoa que não se identifica com o género atribuído à nascença. Ou seja, alguém que tenha sido registado como mulher e se identifica como mulher (e se se identifica, é-o, independentemente do corpo, comportamento, orientação ou aparência que tiver), é cis, tal como a maioria da população. Se alguém foi registado como mulher e se identifica/é homem, é trans. Mas há outra possibilidade para alguém ser trans: não se identificar nem como homem nem mulher. É o meu caso, daí eu estar a habituar-me a terminar palavras que digam respeito a mim com a letra "e" em vez de "a" e a usar os pronomes "elu/delu/..." (há outras combinações possíveis, nenhuma oficial). Mais alguns adendos que contrariam o que a maioria da sociedade acha: nem todas as pessoas trans se sentem "presas no corpo errado" e querem modificar o corpo, daí o termo trans ser abreviatura de transgénero, não de transsexual, pois só a porção limitada de pessoas que querem fazer modificações corporais se classifica como transsexual, sendo trans(género) um termo mais abrangente. E ser trans também não significa sentir que se é de um género oposto ao do sexo com que se nasceu, pois 1) a pessoas não-binárias não é possível aplicar essa relação de oposição 2) pessoas intersexo são registadas como homens ou mulheres apesar de biologicamente não serem de facto nenhuma dessas hipóteses, contudo, se uma pessoa intersexo registada como mulher é/identifica-se com esse género, isso torna-a cis, não trans.

Isto tudo interessa porque eu até podia ter acrescentado a minha opinião sobre o assunto, se o professor não tivesse pedido que uma mulher falasse. Se eu respondesse, eu estaria a dar-me por mulher, e neste ponto eu já não aguento mais mentir sobre quem sou e reforçar a maneira como as outras pessoas - incluindo alunos - me vêm. Já basta não haver uma linguagem "neutra" oficial que me permite respeitar-me , e não poder mudar o meu género de registo para o correto, já que isso também não existe. O professor podia de facto querer que apenas mulheres falassem - e nesse caso, então não houve problema - mas se o objetivo era pedir a opinião de pessoas que não eram rapazes, então devia ter pedido que "pessoas de outros géneros" falassem. Já se se referia a pessoas que foram educadas como mulheres, podendo querer relacionar isso com a tal questão cultural que estava nos slides, então se calhar interessava-lhe pessoas designadas mulheres à nascença. O termo mais correto é mesmo esse - em inglês há até abreviaturas úteis, afab para "assigned female at birth" e amab para "assigned male at birth". Ou seja, considerando que aconteceu em aula, eu não só não podia responder por ter pedido pela opinião de uma mulher, como fiquei sem saber qual dos dois tipos de pessoas que mencionei lhe interessavam, porque sei que a maioria das pessoas não faz distinção entre esses grupos. 

Ainda sobre questões trans, agora que já expliquei o que isso é, deve compreender que não são só mulheres que engravidam - basta uma pessoa ter o sistema reprodutor chamado de feminino (obviamente esse nome deixa de fazer sentido quando se considera que não pertence só a mulheres, daí algumas pessoas sugerirem chamar-lhe ovariano). Portanto, aquilo que foi dito sobre a baixa natalidade devido a, por exemplo, pressão em entrevistas de emprego, não afeta nem só mulheres, nem todas as mulheres (pois para além de infertilidade ser possível, mulheres trans não têm útero nem nenhum dos órgãos necessários, já que uma mulher trans foi designada homem à nascença). A questão afeta pessoas que podem engravidar. 

Sobre questões lgbt+ que não se prendem com assuntos trans, detetei ainda uma frase que mostrou que não estava a considerar pessoas que gostam (exclusivamente ou não) do próprio género - no exemplo sobre oferecer brincos à namorada. Quando o professor passou a aplicar o episódio que disse que tinha acontecido consigo ao resto da turma, fez uma associação qualquer que implicava que só rapazes podiam ter namorada. Não sei as suas palavras exatas, mas disse explicitamente "rapazes" e "namorada". Tenho a certeza de que sabe que há pessoas que não são hétero e provavelmente isso foi só um pormenor que lhe escapou, porém, estou a chamar a atenção para que tente controlar melhor isso no futuro. Deverá ser mais simples do que ter em consideração a existência de pessoas trans. 

Ironicamente, na metade da aula a que eu faltei contaram-me que o professor disse que "depende" seria uma das palavras mais importantes da cadeira, mas não sinto que isso se tenha refletido na maneira como lidou com a opinião de alguns alunos. Repare que eu não estou a questionar a validade das suas respostas, nem que não hajam efetivamente respostas erradas dadas pelos alunos - apenas que, em alguns casos, as respostas dadas foram pouco consideradas. Mas esse é só um pormenor que estou a transmitir também por causa do que outras pessoas comentaram, não tanto algo que me afete, portanto acredito que se o problema persistir outras pessoas lidarão com ele como acharem melhor. Não quero ser porta-voz de ninguém, muito menos sem me pedirem. 

Se este email parecer demasiado informal, crítico, ou exagerado, eu peço desculpa. A minha intenção é apenas esclarecer o problema e não sei como o fazer por completo sem comunicar diretamente. Agradecia receber uma resposta (demore o tempo que precisar, na próxima semana é feriado na sexta e portanto não é preciso que responda até lá), nem que essa resposta fosse a pedir esclarecimentos, a dizer que não se interessa por questões sociais (duvido que seja o caso, pois foi por me parecer aberto à discussão e preocupado com questões éticas que eu deduzi que escrever isto não seria um desperdício do meu tempo), que acha que as minhas críticas não se aplicam... Qualquer coisa. 

Cumprimentos de ume alune que só quer saber se vai às próximas aulas,

Ana Rita

15 de setembro de 2018

Memórias recentes

Nos dois dias anteriores aconteceram coisas que me deixaram muito animade e eu gostava de imortalizá-las. Ironicamente, são demasiado felizes para o mood com que estou agora, então vou deixar este post apenas fazer menção às mesmas: às conversas íntimas física e emocionalmente que tive com o pedro e o bruno na festa de pijama em casa do pedro, onde todos revelamos coisas que eram importantes para nós; às figuras tristes que a rute contou que fez no primeiro ano de faculdade quando eu e o bruno fomos lanchar com ela após sair de casa do pedro; e à nostalgia que senti quando ela disse que visitou pessoas que conheci no 9º ano, o quanto se manteve, tornou mais notório ou mudou completamente, assim como ao meu espanto ao saber que TODAS elas se lembravam de mim e sabiam que estou diferente. E a diferença não é só física - eu tenho encontrado quem sou, tenho encontrado a minha essência e motivação, e não quero deixar que o que aconteceu agora pareça capaz de bloqueá-la - não quero que um problema que aparenta ser maior do que é retire a minha motivação.

Não fiquei na mesma turma que o bruno e o pedro. Sinceramente, não contava com isso - temos ficado sempre, por sorte. Uma parte de mim ainda acha que foi culpa de termos escolhido as mesmas turmas que a vera, que deve ter escolhido turmas mt concorridas, mas claro que ela não tem culpa nem nenhum de nós adivinharia isso, mas still. Preocupa-me porque vou ficar praticamente numa turma onde não conheço ninguém, e isso vai complicar que se faça trabalhos. Ao menos os horários são os mesmos e vamos poder ir nas viagens juntos - se o bruno não sacrificar a minha companhia por mais umas horas de sono que consegue ter não indo às teóricas. Estou a tentar arranjar quem permute comigo, mas não quero ter grandes esperanças. Só quero fazer tudo o que tinha planeado, acreditar que não vou sair prejudicade disto e que nós os 3 não nos afastemos. E espero que isto sirva para eu descobrir que tenho capacidades maiores do que julgo e me tornar menos dependente deles os dois...

26 de agosto de 2018

Mensagem para uma pessoa da praxe

Ok, eu estou a falar contigo porque tu és uma pessoa que adora (assumo que ainda adores) a praxe, mas também és das mais razoáveis a falar sobre o assunto. É que há coisas sobre a praxe que me ultrapassam um bocado e gostava de saber a tua opinião sobre se isto que vou dizer são ideias que considerarias.

Eu nunca tive problemas com a praxe em si - ainda por cima considerando que as praxes são diferentes e mesmo as regras mudam de praxe para praxe. Não sei o suficiente para não generalizar, mas sei que essas diferenças podem chegar ao ponto de não deixar que as pessoas bebam enquanto estão em praxe, porque os doutores sentem-se responsáveis pelo que poderia acontecer aos outros alunos. Mas eu tenho problemas com os valores de algumas pessoas da praxe, e com a forma como esses valores OU são a maioria e portanto a praxe rege-se por eles, OU, se não são, as pessoas que prestam lá no meio fecham os olhos aos problemas - o que me faz parecer que afinal não podem ser assim tão conscientes.

E eu não estou a falar do espírito de união da praxe, nem da questão toda da humilhação, porque eu sei que isso é tudo um bocado para criar solidariedade e reforçar a tal união entre as pessoas. Aliás, até acho que isso podia ser utilizado para precisamente fazer algumas das coisas em que às vezes penso. Por exemplo, eu lembro-me que uma vez vi na televisão uma praxe qualquer a plantar árvores juntamente com outras pessoas. Isso lembrou-me que a praxe podia estar mais envolvida em contribuir para a sociedade. Queriam castigar alguém? Porque não por a pessoa a cumprir algum dever tipo ajudar nas recolhas do lixo? Queriam gritar? Porque não ir gritar para manifestações? Queriam competir com outras faculdades? Porque não competir com base na quantidade de projetos "éticos", digamos assim", em que participaram? Queriam fazer figuras tristes? Porque não tentar angariar dinheiro com isso para levar a associações? E isso não seria nenhum obstáculo às coisas que a praxe já faz na faculdade, os castigos típicos e assim, seriam apenas coisas para fazer depois das aulas ou quando se falta às aulas.

Há ainda coisas na praxe que me causam rejeição completa, como um nível de sexismo mesmo tóxico. Por exemplo, quando a insultar outras praxes insultam as mães das pessoas, em vez de insultarem as pessoas em si. A maneira como falam nem sei porquê em comer gajas e assiim. O facto de as raparigas não poderem ficar juntas quando as pessoas estão alinhadas, embora eu saiba que isso é coisa da nossa praxe - i mean, se impedissem pretos de estar juntos iria parecer mt racista, mas separar as mulheres já não tem problema? E sinceramente, eu nunca poderia fazer parte da praxe, mesmo que na prática até participassem em atividades como as que eu disse acima, se isso fosse só para ficar bem na fotografia mas no fundo continuassem com ideias mesmo discriminatórias. Principalmente considerando que algumas coisas me afetam diretamente, como o sexismo, a transfobia e a homo/bifobia. 

Tu sabes que eu sou bi, portanto percebes o porquê disso e deves perceber porquê que eu não me voluntaria para estar com gente que já demonstrou ter algumas ideias de merda - e sim, eu sei que há exceções dentro da praxe, é claro. Também sei que há pessoas que dizem as coisas a gozar, embora eu não consiga ver a piada de gozar com coisas que no dia a dia têm um impacto real na vida das pessoas. Quanto ao sexismo, eu de certa forma já expliquei o problema, mas eu na verdade nem me identifico totalmente como mulher e daí falar em transfobia. Eu sou uma pessoa não-binária, ou seja, nem homem nem mulher. Não, não estou a falar de ser intersexo, género e sexo não têm necessariamente de coincidir, como deves saber. Eu estou literalmente a dizer que sou aquilo que muita gente na praxe acharia comparável a uma árvore, a uma mesa, e merdas assim que não são géneros mas somehow algumas pessoas parecem achar que tem tudo a ver. Ir para a praxe iria obrigar-me a escolher entre ser vista como rapariga e depois até usar o fato das raparigas - e a sério, eu seria incapaz de usar aquela merda de saia e de sapatos - ou tentar confiar nas pessoas, dizer que era não binária, e arriscar-me a que as pessoas não compreendessem, continuassem a por-me no saco das raparigas até porque a praxe não tem um funcionamento que permita a existência de pessoas não-binárias, e ainda me rendesse piadinhas como a "did you just assumed my gender?" e com um bocado de sorte ganhar um nome de praxe com base nisso. Que é uma coisa que me afeta demasiado para eu achar a mínima piadinha. Eu sinceramente sinto que não existo. E do ponto de vista lega, isso é mesmo verdade. Mas mesmo que a praxenão pudesse ajudar em tudo, pelo menos podia fazer com que pessoas como eu não se sentissem pior, já que algumas dessas coisas não eram difíceis de resolver. Por exemplo, toda a gente podia escolher que fato usar, se queria o conjunto com a saia ou o outro, independentemente do seu género ou sexo - ou seja, isso não beneficiaria só pessoas não-binárias, mas também pessoas trans, mulheres cis (ou seja, não-trans) que não quisessem usar saia e homens cis que poderiam se calhar querer experimentar usar, embora eu imagine que não fossem haver muitos a querê-lo. Mas como no fundo no fundo a maioria das pessoas da praxe ainda é sexista e lgbtfóbica como a porra, se calhar mesmo que algumas pessoas suportassem coisas dessas, não iriam para a frente. 

Pronto, é isso, diz o que pensas. Demora o teu tempo a responder, mas se não fores dizer nada, avisa-me para eu não ficar à espera. 

27 de julho de 2018

Como assim ser trans questiona a biologia ou o feminismo?

Como assim ser trans questiona a biologia ou o feminismo?

Nunca fez sentido para mim as pessoas começarem a vomitar aulas de biologia para questionar a validade de pessoas trans. Sim, nós podemos até ter aprendido que determinado corpo pertence a mulheres e outro tipo pertence a homens. Mas, para além de isso não ser inteiramente verdade - dado que pessoas intersexo são registadas como homem ou mulher e, mesmo que se possam identificar com o género com que foram registadas, continuam a ter um corpo diferente do que nós indicamos como masculino/feminino - é apenas uma questão de nomenclatura. O quê que custa dar nomes a certos tipos de corpos sem qualquer relação com os termos feminino e masculino? Ou, pelo menos, dizer que um certo corpo é comum entre pessoas designadas mulheres à nascença e o contrário de uma perspetiva binária? Ou dizer que quem tem x tipo de corpo são mulheres cis, homens trans (caso não hajam intervenções médicas) e algumas pessoas não-binárias, e vice-versa?

A sério, em quê que isso afeta a ciência/biologia/medicina? Não são só palavras?... Que até acabariam por ser mais accurate/adequadas caso sofressem alterações, dado que pessoas trans mudam o seu género no registo quando podem, portanto passamos a ter homens e mulheres (não há muitos países que permitam o registo de pessoas não-binárias) com um corpo diferente do que aprendemos que teriam. Apenas fazendo alterações é que o que está na lei ficaria em conformidade com a terminologia ciêntífica.

Como é que alguém pode, contudo, opôr-se à luta por uma terminologia que 1) não afeta minimamente a ciência e 2) inclui/respeita toda a gente - insistindo que, por exemplo, mulheres trans são homens porque o corpo delas (recuso-me a usar os pronomes que pessoas que pensam isso usariam para se referir a mulheres trans) apresenta x caraterísticas comuns em homens cisgénero - ultrapassa-me.

Os nomes, somos nós que damos. Associar certas coisas - como sexualidade, corpo, comportamento, gostos, papel social e expressão de género - a certos géneros, também fomos nós que o fizemos. Daí tanta gente dizer que género é uma construção social - essa frase não se refere à noção de género em si, mas ao modelo. Transcende-me completamente *no pun intended* como é que até mesmo algumas feministas (TERFs E TWERFs), que lutam para acabar com a noção de que todas as pessoas se enquadram no modelo de género estabelecido, lutam contra estereótipos em relação a tudo, menos ao corpo. Se uma pessoa pode ser (por exemplo) homem e gostar de ficar em casa a cozinhar e cuidar da família, e está só a ser fiel a si, qual é o problema em ter um homem trans com partes do corpo não esperadas num homem? E mesmo que ele seja super masculino (no sentido tradicional) e não questione ativamente estereótipos de género, também não os está a reforçar só por ser fiel a si - o homem dono de casa do exemplo anterior também podia ser bastante masculino em muitos aspetos e se calhar só pelo seu papel social já estaria a ser aplaudido. Porquê cobrar a algumas pessoas mais do que a outras?

Não é assim tão difícil, porra. Ser homem/mulher não implica que uma pessoa goste exclusivamente e necessariamente de pessoas do género binário oposto ao registado, não implica que tenha um dado comportamento/gostos/aparência, não implica um papel social específico... e não implica um dado tipo de corpo.

Quanto ao argumento "a experiência é diferente!", isso só denota uma falta de reconhecimento muito grande no que toca a questões interseccionais. Não é por duas pessoas pertencerem a um mesmo grupo que têm uma experiência igual, até mesmo por influência das várias esferas sociais a que pertencem, que podem diferir. Por exemplo, mulheres brancas e mulheres negras podem ser ambas mulheres, mas enquanto que mulheres brancas tiveram de ativamente lembrar a sociedade de que algumas delas podem ser fortes, mesmo em termos físicos, as mulheres negras eram escravas que tinham de fazer trabalhos físicos apesar do seu género/sexo. Têm experiências comuns e distintas. Entre mulheres cis e mulheres trans, ou homens cis e homens trans, é a mesma coisa: há semelhanças e diferenças, e as palavras cis e trans servem perfeitamente para destacar o que é diferente quando tal for relevante.

Carago, a palavra trans - e a existência de pessoas que se enquadram no guarda-chuva da definição - RECONHECE a biologia, por alguma razão existe em oposição a cis! E não reforça estereótipos de género coisa nenhuma.

- Mulheres trans são um tipo de mulher tão normal e válido como mulheres cis, mesmo que tenham sido designadas homens à nascença. Devem ser referidas como mulheres e no feminino.

- Homens trans são um tipo de homem tão normal e válido como homens cis, mesmo que tenham sido designados mulheres à nascença. Devem ser referidos como homens e no masculino.

- Pessoas não-binárias são não-binárias, normais, válidas e podem incluir-se na comunidade trans, independentemente do género designado à nascença. Deve-se perguntar-lhes como é que preferem ser referidas ou tentar usar um tratamento neutro.

- Pessoas com géneros especificamente culturais não deviam ter de abdicar da sua identidade de género e cultural por conta de sociedades ocidentais que não as respeitam. Deve-se perguntar-lhes como é que preferem ser referidas ou tentar usar um tratamento neutro.

Não há qualquer necessidade de negar o género de ninguém com base nem no argumento biológico, nem no argumento feminista. Acreditar no contrário é pura transfobia, mesmo que possa ser transfobia internalizada e inconsciente.

31 de maio de 2018

O momento em que o muro cai (arfid related)

Eu adoro o momento em que as minhas muralhas mentais caem. Lembro-me quando descobri que era bi lendo a palavra num blog de outra pessoa que também o era, e ressonou tanto comigo, que foi como se... sei lá, como se o mundo à minha volta mudasse. Ou como se tivesse começado a ver cores. Como se tivesse encontrado uma tábua de salvação. Sinto-me hesitante em proferir essa ultima metáfora, mas a razão pela qual me sinto assim é precisamente a mesma pela qual a metáfora se aplica. Porque enquanto o mundo não cai, eu consigo mentir a mim mesma ao ponto de me considerar "normal" - no sentido de comum. Eu já por várias vezes tentei descrever a forma como a representatividade é importante para mim porque me permite conhecer-me melhor e ser mais autêntica e honesta COMIGO MESMA, porque me faz perceber que x maneira de ser é possível. Nomes? São importantes porque me fazem perceber porque há gente como eu em número suficiente para ser classificada. É uma salvação para mim, porque paro de me mentir. Damn, se eu nunca tivesse visto a palavra bi e se nunca tivesse visto No.6, ainda tenho medo de continuar convencida de que só gostava de homens e que era uma mulher cis, por 247389711 razões.

No momento em que estou a escrever isto, ainda estou simultanemanente em choque e aliviada por descobrir... que tenho uma eating disorder. ARFID - avoidance/restrictivefood intake disorder. Quase choro ao encontrar uma comunidade de pessoas que tem problemas praticamente iguais aos meus e que sabe como os julgamentos das pessoas tornam tudo pior. Há tanta coisa na minha cabeça no momento que nem me vou dar ao trabalho de escrever algo coerente, vou só listá-las para desabafar e conseguir materializar de uma vez aquilo que já percebi que tenho. 

Eu detestava que a minha mãe sugerisse que eu podia ter uma eating disorder porque eu achava que isso se relacionava com body image e com querer perder peso, o que definitivamente não era o meu caso, e detestava ainda mais porque sabia que o conhecimento da minha mãe e de todas as pessoas que conheço - inclusivamente de vários médicos! - só ia até aí e que só levaria a tentar combater um problema que eu NÃO tinha, desviando ainda mais a atenção do problema real.

A maioria das fontes que encontro diz que ARFID se prende com a comida em si e com uma restrição na comida que uma pessoa consegue ingerir, mas já encontrei pessoas com arfid que afirmam que pode tomar outras formas, como as que eu tenho predominantemente: comer pouco e extremamente devagar. 

Eu tb sou picky com a comida, though: Decididamente não tenho problemas com a cor da comida nem com o sabor. Mas tenho problemas menores com o cheiro, tenho alguns problemas com a forma (essa é literalemnte a razão pela qual eu não consigo comer arroz vaporizado, é demasiado redondinho, grande e perfeitinho em comparação com aquele arroz mole que eu como bem), e creio que o o que eu chamo de "problema da consistência da comida" é o que toda a gente chama de problemas com a textura. 

E definitivamente esse é o maior problema, ao ponto de eu comer bem coisas inconsistentes. Irónico como a tradução de mushy tanto pode ser "mole" como "sem-consistência", porque enquanto que eu considero coisas moles - que para mim é sinónimo de fofas - um problema, coisas sem consistência são aquilo que eu como melhor. Bolos VS pão de hamburger? Eu tenho começado a evitar bolos (bolos vegan são uma exceção que descobri recentemente e agora não quero mais nenhum!), contudo na faculdade almoço sempre pão de hamburger com alguma coisa. E tenho descoberto que pão é algo que a maioria das pessoas com arfid come razoavelmente bem, e eu definitivamente estou entre elas. Mesmo assim, há pão que eu não consigo comer, pão que consigo comer, e pão que só consigo comer se estiver torrado.

Há tantas nuances, e parecem todas tão random - parece que n há um critério exato para aquilo que consigo comer e aquilo que não - que até hoje eu julgava que era loucura, e tentava abafar o meu problema, minimizar o quão difícil para mim é comer, quase dar razão as pessoas que me julgam. É por isso em que o momento em que o muro cai é importante para mim, porque percebo que não estou louca por achar que sou quem sou ou que tenho x questão com qual lidar, e posso parar de negar que tenho de lidar com essas coisas.  Também tenho uma RAZÃO MÉDICA TM que posso apresentar para recusar ter de comer junto de outras pessoas sem parecer que estou apenas a ser rude ou a tentar arranjar desculpas para não estar com elas.

Eu nem sei se arfid é reconhecida em Portugal e não sei se quero contar à minha mãe nem à bea que tenho isto, porque isso para elas vai ser "prova" de que está tudo na minha cabeça e que portanto se eu não consigo ultrapassar, é porque não quero. Nevermind que eu deixei de conseguir comer algumas das minhas antigas comidas favoritas... Viver com pessoas que acham que problemas mentais são bullshit e uma desculpa dá nisto. Eu acho que no fundo sabia que isto estava na minha cabeça - a sensação de engasgo ou de que a comida embolava na boca ou de que por mais que mastigasse não ia conseguir engolir e entretanto ia começar tudo a ficar colado ao céu da boca - e por isso é que não queria ir fazer exames à tiróide, ao estômago ou afins. Porque era pointlesse e não se ia encontrar nada. Também são dificuldades que acabei de reparar que são partilhadas por praticamente toda a gente que tem arfid.

Arfid costuma desenvolver-se em criança ou adolescente, e no meu caso foi em adolescente. Eu não sei exatamente quando é que o problema começou, mas sei que aos 15 anos já o tinha, porue lembro-me de quando o meu primeiro namorado vinha almoçar cá a casa eu lhe dava uma seca tão grande que eu acabava por desistir de comer tudo. Também sei que, pelo menos até aos 12 anos, eu comia extremamente bem - comia um prato cheio super depressa e ainda repetia. 

Muitas pessoas dizem que a melhor "solução" para conseguirem comer melhor é tentarem introduzir novos alimentos, formas de preparar a comida ou simplesmente comer SOZINHAS. E eu apercebi-me à cerca de uma semana precisamente que, quando estou sozinha, eu consigo quase sempre comer tudo o que tenho no prato (diria que o meu caso de arfid não é de nem de perto tão grave como o que a maioria das pessoas tem, e se calhar também foi por isso que eu mentia a mim mesma em relação a não ter nada com tanto sucesso). Demoro umas duas horas - sem exagero - mas consigo. E eu sei, porque há cerca de uns dois meses comecei um habit tracker e uma das coisas que eu comecei a apontar foi quando é que eu conseguia comer tudo pelo menos uma vez por dia (almoço ou jantar). E as vezes em que conseguia foram vezes em que estava a comer na cozinha sem ninguém há minha volta. Em grande parte, por não sentir pressão para não ser lenta. 

Em menos de meia hora, encontrei montes de coisas em comum com pessoas que têm arfid e estou bastante certa de que tenho o mesmo problema que elas, bless tumblr. São pessoas que sabem como é chato ter de recusar saídas ou estar com pessoas para não ter de comer com elas, sabem como é chato ter de arranjar qualquer coisa pa justificar o facto de que comes sempre a mesma porcaria, sabem como é chato quando as pessoas pegam contigo por estares a comer coisas "pouco saudáveis", mesmo quando é a brincar, porque não sabem que quem te dera a ti conseguir comer algo menos balofo e variado de vez em quando. E sabem como é o medo de algum dia não te deixarem comer aquilo que tu sabes que consegues...

Num [vídeo], uma pessoa com arfid disse que uma vez a mãe a queria obrigar a comer certas coisas e disse a essa pessoa que a ia proibir de comer aquilo que ela sabia que conseguia comer durante uma semana. A pessoa simplesmente olhou para a mãe e disse que, se ela fizesse isso, ela ia morrer de fome. A pessoa deixou claro a seguir que estava a ser 100% séria, mas mesmo antes de ela dizer, eu já sabia que estava. Eu já disse coisas semelhantes à minha mãe. Se em algum momento eu sinto que só consigo comer certas coisas e não as puder comer, não como mais nada. Se não houverem outras opções ou se me restringirem o acesso a elas, bem fico com fome. E a parte mais fucked up é eu sentir-me aliviada por saber que esse meu medo é real e não só algo que a minha subconsciência imaginava...