2 de julho de 2019

Não quero que se orgulhem da "filha"

A minha mãe acabou de me sugerir que levassemos cartazes matching para a marcha lgbt+ do Porto, a dizer "Orgulho-me da minha mãe" e "Orgulho-me da minha filha". A ideia é linda e realmente reforça o facto de que tenho o apoio dela, o que não devia ter nada de especial mas ainda tem, dada a quantidade de gente que tem pais que rejeitam os filhos de alguma forma pelo que são. Mas no nosso caso, eu não acho que os cartazes sejam adequados e não sei como lhe dizer isso. Há 3 razões: a primeira é uma razão menor e só uma implicação com o número de significados da palavra orgulho neste contexto, a segunda até me fez chorar quando a escrevi nas morning pages, e a terceira estou demasiado cansade para elaborar muito porque não me parece haver solução possível para a contornar. 

1) Dizer que me orgulho da minha mãe pode passar a ideia de que ela é mais do que uma aliada. E eu não acho que ela se importasse em ser vista como lgbt+... mas, por um lado, apaga o facto de que há mesmo relações em que tanto os pais como os filhos são lgbt+ e, por outro, não acho justo pessoas cis-het se apropriarem das experiências de pessoas lgbt+ só quando lhes apetece e estão num contexto em que "é fixe" ser visto como tal, como é o caso da marcha.

2) Não é verdade que me orgulhe dela neste aspeto. Orgulho-me dela em mts coisas - especialmente pela sua força e pela maneira como luta à sua maneira contra as noções completamente falsas que outras pessoas têm dela - mas não da maneira como lida com uestões lgbt+. Na verdade, ela já lida com essas coisas muito bem, compreende mais do que eu alguma vez esperaria que ela compreendesse após a reação inicial, e não positiva, que teve ao meu comingo out, e a maneira como ela encara tudo como radical (mesmo quando afirma que é natural, nota-se que há algo nela que ainda diz isso com demasiada intensidade) tem a ver com a personalidade dela, que transmite sempre demasiada emoção com tudo: até a elogiar os meus desenhos ela faz um filme que parece que está em choque, em comparação com a reação de todas as outras pessoas xD Então no fundo, no fundo, quase já não há problema nenhum. O problema acaba por ser eu, que tinha esperado demasiado dela e tive as minhas expectativas arrasadas quando ela soube que eu era bi, de tal maneira que isso afetou completamente a maneira como eu interagia com ela. Desde essa altura, sinto que nunca mais consegui falar com ela da mesma maneira, nem transmitir a minha perspetiva... porque eu simplesmente nao consigo falar. Ela própria parece tentar trazer os temas à baila e seriam a situação perfeita para eu poder acrescentar as minhas opiniões ou conhecimento, mas parece sempre que tenho alguma coisa entalada na garganta e nunca acrescento nada, e se o fizer, vai ser porque já não consigo acumular mais nada e vou explodir e deixar toda a gente chateada. O meu coming out criou uma barreira entre nós, de que ironicamente ela nem parece aperceber-se, mas para mim é impossível de ultrapassar. E eu podia até fazer o esforço de recuperar o que tinha mas... sicneramente, eu nunca vou concordar em que se espere mais esforço da pessoa que foi magoada do que da pessoa que magoou - mesmo que ambas lamentem o que que perdeu - e portanto não acho correto abrir uma exceção para mim. Ou o tempo cura isso, ou esta barreira fica para sempre. Não sou eu que tenho de fazer o trabalho de casa de a quebrar. E não consigo ter orgulho de uma pessoa que me deixou assim...

3) Eu não sou filha, nem filho. E como não há linguagem nenhuma em português capaz de captar que sou não-binárie, a não ser coisas inventadas e alvo de chacota, prefiro ao menos omitir que se confirme as mentiras que outras pessoas pensam de mim - no caso, a ideia de que sou rapariga. 

E com isto estou a considerar nem ir à marcha. É uma coisa linda, e este ano seria particularmente especial: fazem 50 anos desde os Stonewall Riots, que começou o movimento lgbt+ atual, e iria com mais amigos, fora que é o ano em que acabei a faculdade e era fixe celebrar nesse sentido também. Mas estou demasiado esgotade, a deprimir até, e estar no meio de tanta confusão, com pessoas que só estão lá pela festa mas que não percebem nada da maioria das identidades lgbt+, e não estar realmente a ser viste como pessoa não-binária num evento em que é suposto assumirmos e mostramos e sermos nós próprios... derrota um bocado os aspetos positivos. E começo a recear que vou sair de lá pior do que fui. Eu sei que, se não for, me vou arrepender, porque vou perder muita coisa. Mas acho mesmo que, indo, me vou arrepender também. Não acho que tenha ainda encontrado aquilo que quero, e preciso, e estou a começar a abrir mão das coisas que não valem 100% a pena. Também acho que tenho demasiadas coisas a resolver comigo para poder assumir o que quer que seja, a única coisa que eu mostraria era uma rapariga, e felicidade falsa. 

Só me falta ver os dois ultimos eps de supergirl e a Alex disse que chorou ao vê-los. Eu achava que não ia chorar, mas neste estado é provável...

7 de junho de 2019

Abusive parenting

Eu sei que não vou ter filhos, mas gostava de adotar, acima de tudo pq sei que daria uma educação de qualidade. Em termos de valores, principalmente. E isso incluiria nunca bater às crianças. Bater nem sequer faz sentido! Se a criança for nova demais para compreender as coisas, bater só fará com que ela adquira medo dos pais e fique com receio de explorar, n vá isso resultar em que lhe batam. Se tiver idade para perceber o que lhe dizem, então mais vale explicar onde é que errou, em vez de fazer obedecer por medo... E se a criança não fez nada de errado e o pais só estavam a descontar pelo seu mau humor, pior ainda.

Eu lembrei-me disto pq me vieram à cabeça, sem nenhuma razão, episódios em que a minha mãe me bateu. Ainda por cima, ela batia sempre por coisas menores que normalmente não eram um problema, exceto se ela estivesse de mau humor, com sono ou fome, e eu lembro-me que doía bem. Não eram só palmadas. Eram bater com a minha cabeça na parede, bater-me na cara, bater-me com o chinela ou com a mão com imensa força, arrancar-me cabelos pela raiz, enquanto me encurralava contra as paredes ou contra o chão para eu não poder fugir, o que é ainda mais uma forma de mostrar que dominava através da força bruta e de incutir medo. Caralho, eu sei o que é raiva, mas mesmo que eu até desejasse a morte de alguém, isso não me daria o direito de ser o carrasco. Se alguma vez destruí coisas enquanto estava stressade e irritade, foram coisas minhas, e nunca ameacei nem bati em ninguém. Já a minha mãe chegou a ameaçar-me de me atirar com facas, com panelas de água a ferver e rachar-me a cabeça, e ela parece tão descontrolada quando está nesse estado, que eu quase acreditava e tinha de me calar - mesmo não estando a fazer nada que alguma vez tenha considerado errado. Eu juro que se me pedissem para explicar porquê que a minha mãe alguma vez me bateu, eu não saberia dizer uma única causa.

Eu já sabia que isto era uma coisa que me perturbava, mas não estava à espera de ter tanto a dizer sobre o assunto...

O pior é que ela ainda fazia gaslighting. Dizia sempre, depois de ameaçar que ainda me matava se eu não me calasse/parasse, que se mataria a si própria a seguir, e a culpa disso tudo seria minha, porque a provoquei. Isso é mesmo abusivo e victim-blaming, exatamente as coisas que maridos violentos dizem quando batem às mulheres, culpando-as por eles se terem descontrolado, e o pior é que nem descontrolados estão pois, se estivessem, as suas próprias coisas também seriam alvo de violência, em vez de serem só as coisas das mulheres e as próprias. Não, pessoas que clamam estar descontroladas por culpa de alguém quase sempre estão perfeitamente cientes do que as rodeia e só estão a ser manipulativas, mesmo que inconscientemente. E quase consegue ser cómico como tantas mulheres perpetuam, ao "educar" os filhos, a mesma violência que é usada contra elas e de que tanto se queixam.

Além disso, das vezes em que tentei falar com ela sobre o assunto, ela reage de forma defensiva, ou fica toda indignada, ou ri-se qd eu tento explicar porquê que não se deve bater aos filhos, ou volta a virar tudo contra mim e a repetir a lenga-lenga de que eu a tiro do sério, e quando dou por ela já está a falar por cima de mim e se eu tentar fazer-me ouvir elevando a voz, porque ela não faz pausas para me permitir responder, começa a dizer que eu estou a berrar como uma cabra, sendo que a voz dela normal já é quase mais elevada que a minha, mesmo que eu estivesse a gritar.

Não devia poder ficar pior, mas pode: A bea aprendeu essas táticas abusivas com a minha mãe e com o Paulo, e como sabe que é mais forte que eu e eu nunca lhe bateria (por um ldo por não ter força e porque se o fizesse a minha mãe ia dizer que eu tinha perdido a razão e se calhar ainda me batia por cima quando soubesse),  tb me ameaça bater quando a minha mãe não está só por eu lhe dizer alguma coisa que não lhe está a agradar ouvir, e insiste que vai fazer o que quiser com as minhas coisas.

Uma das coisas que sempre achei irónicas - e tenho memórias tanto disto, como de achar isto, desde que tenho pelo menos 5 ou 6 anos - é que, depois de a minha mãe me bater e eu passar horas no quarto a berrar e a chorar (enquanto oiço que se não parar de chorar ainda levo outra vez e que só faço escândalos que os vizinhos estão a ouvir)... a minha mãe levava-me sempre chá e tentava falar comigo. Era basicamente o pedido de desculpas dela. E se alguma vez chegassemos a concordar sobre alguma coisa que eu estivesse a tentar dizer antes porque finalmente ela se dispôs a ouvir-me - o que era raro, porque que me lembre, lá está, não havia razão nenhuma nem assunto nenhum para ela me bater, ela simplesmente queria-me calada e queria descontar o stresse em alguém - isso podia ter sido tudo discutido antes. Porquê bater-me primeiro e discutir depois? Não faz sentido. Além disso, eu nunca a desculpei realmente. Mesmo quando ela vinha falar comigo e eu falava calmamente e bebia o chá e tal - que tinha quase sempre propriedades calmantes segundo ela, como se fosse eu que precisava de me controlar - eu nunca a desculpei realmente. Eu só fingia - e continuo a fingir - que alguma vez desculpei. Que mais podia fazer? Não desculpar e mostrar isso não faria diferença nenhuma, ela poderia continuar a bater-me se quisesse, além de que eu não tinha energia para mais coisas que ela pudesse entender como provocação. Uma coisa é certa, não se como é que pessoas adultas às vezes têm de passar por imensos ciclos de abuso até entender que alguém é realmente abusivo e que a culpa não é sua, eu acho que conseguia entender isso mal comecei a ter senso de mim próprie, embora não tivesse palavras para descrever isso.

Não tenho mais nada a dizer.
Cha e n desculpar, perceber que e abusivo desde sempre

18 de abril de 2019

Então... Sobre a catedral de Notre Dame que ardeu, eu tenho visto dois tipos de posts: Posts que lamentam a perda da catedral e divulgam os esforços feitos no sentido de estudar o que aconteceu e recuperá-la, e posts que condenam o dinheiro investido na recuperação e a forma como esta desgraça está a receber muito mais atenção que outros problemas mundiais que deviam ser prioritários.

E eu devia estar a acabar um trabalho de faculdade, mas decidi partilhar os mixed feelings que tenho por ambas as opiniões, até porque acho que é uma posição digna (não diria neutra, mas também não é nenhuma das anteriores). Para que conste, eu tenho noção de que não sei tudo e agradeço quem puder acrescentar mais nuances e informação a todas as coisas que digo (aceito links para ler), quem em concordância ou a discordar:

1 - É obviamente verdade que questões como a fome, a segurança e o património de outros países deviam ser prioridades. Isto dito,

a) O facto de se estar a mover fundos para reconstruir a catedral não rouba o dinheiro que podia ser dedicado a essas causas. Se não houve mobilização nesse sentido, é porque as pessoas/governos não querem/podem contribuir, não porque estejam tão tesos que têm de decidir se vale mais o património da França ou pessoas a morrer de fome

b) Falar da fome em África não me parece ser a melhor maneira de passar o argumento de que as prioridades dos governos estão trocadas, sinceramente. Há vários impedimentos à interferência de governos entre-países, e o que aconteceu na França... seria melhor confrontado com a pobreza no próprio país

c) Há de facto vários casos de património que ardeu noutros países - incluindo catedrais - que nem sequer ficaram conhecidos, e sem dúvida parte das razões é a forma como os países em questão são considerados "menos importantes". Por sua vez, isso está relacionado com um afastamento cultural e com falta de representatividade e de contacto. Mas comparativamente, as catedrais que foram alvo de desastres (pelo menos as que vi mencionadas) representam perdas muito menores que a de Notre Dame, e não é preciso muito para além de uma comparação visual. De certeza que são importantes para as suas populações, e é esta insistência em renegá-las para um patamar de desimportância que mantém esses países longe de oportunidades para florescer. Mas, embora eu pudesse aceitar que alguém argumentasse que todos os países deviam receber igual atenção e apoio, não apoio que digam que Notre Dame não tenha importância nenhuma nem que seja indigna de recuperação. [Mais nos pontos seguintes]

2 - Muitas das pessoas que reclamam pelos contributos destinados à recuperação de Notre Dame nada fazem na direção de apoiar as causas que supostamente defendem. De facto, muitas das pessoas que reclamam parecem nunca ter presente na mente que esses gravíssimos problemas mundiais existem sequer, a não ser quando lhes convém lavar as mãos por não contribuirem para as causas a seu alcance. Ora...

a) Não digo que a carapuça sirva a toda a gente, e compreendo na perfeição a quase impotência perante causas mundiais tão grandes e enraizadas nas sociedades em que são encontradas (como... meio segundo para adivinhar...: a fome em África! yay, acertaram!).

b) Isto dito, muitas pessoas que contribuem para uma causa contribuem para outras - até porque quem tem dinheiro só não o aplica devidamente se não quiser e/ou não tiver consciência

c) Esta é realmente uma estratégia utilizada para as pessoas se livrarem das suas responsabilidades, consciente ou inconscientemente. De facto, trazer à baila a fome em África tornou-se o exemplo mais comum do que as pessoas dizem para evitar contribuirem de forma positiva para o mundo. Ao mencionar um problema demasiado complexo para ser solucionado por nós, ou mesmo por um conjunto de pessoas, isso está ao mesmo tempo a apelar à pena, a diminuir todos os restantes problemas por comparação com o mencionado, e a justificar o porquê de não se estar a fazer nada quanto a isso.

3 - Tenho visto gente chamar a catedral de Notre Dame de "bem material", reduzindo-a a algo no mesmo nível de um carro, uma cadeira,... quase insinuando que preocupar-se com a catedral é uma preocupação de rico e inteiramente capitalista.

a) Não é que a fama e o capitalismo não venham à baila, mas símbolos não são bens materiais. E a catedral era um símbolo poderoso em muitos sentidos: era um símbolo religioso, cultural, histórico, patrimonial, literário, artístico, talvez mesmo exotérico e outros que me escapam. A forma como tanta gente tem falado dela deixa-me abismade com tanta ignorância, e não creio que isso seja classismo da minha parte, pois a maioria das pessoas que vi dizerem isso são pessoas com tantos estudos como eu - quem não os tem, dá para perdoar.

b) Mas após a recuperação, aí sim, acho que será aceitável chamá-la de bem material, da mesma forma (mentira, no caso da catedral é muito mais significativo) que se os meus desenhos ardessem e alguém se oferecesse para os reproduzir sem a menor diferença instantaneamente (vamos supor que é possível por propósitos de argumentação), não teriam o mínimo de valor para mim, pois todos os meus sentimentos, pensamentos, esforço e tempo dedicado teriam sido perdidos. E isso não se recupera. Arte não se recupera, nem se sara a ferida que fica nas pessoas que a perdem. Acrescentando ao facto de perder arte todo o significado que se perdeu com ela, não posso aceitar ver pessoas insultar de tal maneira o que se perdeu.

c) Vale vidas? Não, não vale. Mas foi construída por vidas, e isso também não deve ser desprezado. Se se preocupam tanto com bens materiais, dispensem os carrinhos e esse tipo de coisa. Acham a comparação injusta? Pois, então é adequada.

Ok, acho que era tudo. Talvez venha a editar o post se vir mais argumentos


4 de fevereiro de 2019

Sucesso

Uma vez na escola, no 9º ano, tive de fazer um texto argumentativo a opinar sobre o facto de naquele ano se ter decidio que alunos de dado ano teriam exames. Eu fui contra, pois nunca fui fã de avaliaçoes, julgamentos, pressoes e competiçao. Mas mais tarde a minha stora comentou que apoiava pk isso preparava melhor os alunos, e eu tinha de compreender a sua posiçao.

Se a função da escola fosse ensinar, avaliaçoes seriam algo completamente estupido, que so serviria para criar pressao, para alunos compararem o seu valor com o dos colegas, e para stressar com estudo ou com a culpa de n ter estudado. Mas o papel da escola é preparar os alunos para o sistema.

n acho que seja sequer uma boa forma de preparar, quando uma pessoa precisar de algo, aprende a fazer - o meu pai sempre acho que a minha escola primaria me estava a preparar mt mal e que eu sentiria uma mudança demasiado drastica qd mudasse de escola, ao ponto de deixar de ser boa aluna. Embora eu tenha sentido essa mudança, continuei a ser melhor aluna, pois foi só adaptar-me. Uma pessoa consegue sempre fazer melhor se assim quiser. Criar mais dificuldades no caminho para preparar a pessoa para a dificuldade da etapa final nao faz qualquer sentido - a unica coisa que isso faz é com que a dificuldade final seja experienciada mais cedo. E até que ponto é benéfico deixar uma pessoa já cansada e aborrecida quando for aproveitar a etapa final? No caso, como é que poderia ter sido melhor eu ter uma escola primária rigorosa, que tivesse matado a minha criatividade nos primeiros anos como os anos restantes fizeram? Se tivesse tipo uma escola assim, as unicas diferenças seriam que o meu esgotamento se viria a acumular ha mais anos e nunca teria descoberto o meu gosto e jeito para coisas criativas, como desenhar, pois n teria tido tempo para explorar essas habilidades. Ha de facto situaçoes em que da jeito uma pessoa enfrentar as dificuldades antecipadamente - mas sao situaçoes de competiçao: se eu fosse a um concurso de algo, n convinha experimentar as dificuldades apenas nessa hora, convinha que as minimizasse ao maximo para ter mais chances contra os concorrentes. 

Todo o proposito das avaliaçoes, da preparaçao... so faz sentido dado o nosso sistema. Entao eu n culpo a escola nem o sistema de ensino, mas sim o sistema e a forma como tudo está interligado. Num sistema em que sucesso fosse medido pela felicidade das pessoas, sero melhor n teria de ser um criterio para garantir essa felicidade, nem um meio intermedio para garantir condiçoes minimas financeiras e afins que poderiam ser as provocadoras de felicidade. Uma pessoa podia ser feliz por estar constantemente a aprender, comparando-se nao com os outros, mas com o que sabia antes. Ou podia ficar feliz por ser a pior pessoa entre varias numa dada área, pois isso significava que tinha imenso espaço para crescer e a perspetiva dessa jornada entusiasmava-a, e porque isso implicava que poderia aprender algo com todas as pessoas que a rodeavam - pois, no fundo, isso n faria realmente dela a pior, apenas era a pior naquele grupo e isso n contava para lhe barrar o caminho as condiçoes minimas nem levava a julgamentos, pois toda a gente estava ali para aprender. Uma pessoa podia ser feliz por cultivar os seus legumes biologicos e passar o tempo com pessoas que lhe eram queridas, ou por ler mts livros, ou por criar arte... e conseguia atingir esses objetivos, porque n tinha de se matar para comer, ter uma casa, higiene, segurança. 

Se o sistema garantisse isso, só entrava no ambiente de competiçao quem quisesse. Da forma que está, mesmo quem n quer e n se sente feliz assim e obrigado a participar ou é fortemente prejudicado se n o fizer - e, o pior de tudo, é julgado pelo quao "bem sucedido" é num sistema do qual preferia nem fazer parte. As pessoas sao julgadas pelo quao bem se adaptam a um sistema de que n gosta, e ainda por nem sequer gostar. 

27 de dezembro de 2018

O insulto ao corpo lido como feminino

Eu as vezes penso que o corpo "feminino" é mesmo muito mal tratado pela sociedade. eu nem sei se me vou saber explicar, mas as vezes sinto que mesmo que deixasse de haver discriminaçao no sentido de sexismo, machismo e relacionados, a propria biologia continuaria a ser problema que bastasse. Eu acho que ouvi quase todas as mulheres que conheço dizer que gostavam de não ter o periodo, ou até que "gostavam de ter nascido homens" embora - e por isso n penso que se deva referir a elas no masculino nem como homens trans, dado que o comentario é originado por razoes distintas - nao queriam realmente ser vistas como homens, referem-se apenas ao corpo. já nem estou a considerar desvantagens como força e isso, que também são meh mas n são tanto uma fonte de incomodo e até sofrimento. não se compara ao período ou ao parto... 

MAS - e é esta é a parte que se relaciona com o tratamento da sociedade - a maneira como "mulheres" aprendem a lidar com o seu corpo ainda é aquilo que me custa ver. Não dá para controlar o corpo com que alguém nasce. Mas as coisas controláveis são uma merda: o facto de tantas pessoas serem educadas para esconder quando estão com o período como se isso fosse vergonhoso é ridículo; o facto de seios serem tratados como algo sexual - principalmente os mamilos, que homens tb têm - e provocatório quando mostrado é extremamente frustrante; as roupas são frequentemente mais desconfortáveis, expõe mais a pele, são mais transparentes, só estao disponiveis em tamanhos irrealistas ou são impraticas; apesar de já ser possível fazer operações para nunca engravidar, a idade mínima (25 fucking anos) e eventuais condições que outros países têm são mesmo insultuosas, infantilizam/desresponsabilizam a pessoa que quer fazer a operação e faz pressão para que alguém seja obrigado a ter filhos - aliás, esse é mesmo um requisito para fazer isso em alguns países, nós podes fazer a operação para não engravidar... se não engravidares e tiveres 2 filhos antes >.<; se uma pessoa tiver dores menstruais e for ao médico, eles em vez de analisarem o que se passa vão dizer que é normal e mts vezes o que se descobre anos dps é que as dores que a pessoa tinha não eram nada normais, mas como é vista como tal (até pk mts médicos acham que mulheres fazem sempre descrições exageradas), o problema de saúde (acho que é endometriose) piorou nesse espaço de tempo e tornou-se bem grave; se uma pessoa não se estiver a sentir mt bem quando está com o período não pod faltar ao trabalho/escola, nem sequer deixar de fazer educação física, porque "não é nenhuma doença" e nunca seria passada justificação médica por causa disso; por causa dos atributos físicos, o sexo feminino é visto como mais fraco apesar de mulheres serem obrigadas a manter a sua rotina, mts vezes idêntica à dos homens, mesmo enquanto sangram, têm o humor alterado e mts vezes dores; mulheres não costumam aprender sobre masturbação e ainda há imensa gente que acha que masturbação feminina é tabu e uma coisa vergonhosa; durante o parto as enfermeiras são monstruosas, e é durante o parto que muitas vezes é feita episiotomia (um corte entre a vagina e o anus para facilitar a passagem do bebé) às vezes sem necessidade, entre outras manobras que nem sempre se justificam porque as enfermeiras são monstruosas - acho que nenhuma mulher cresce sem ouvir que deve desconfiar de outras mulheres e que elas nos vão tentar fazer sofrer o máximo possível, nem que seja porque elas também passaram por esse sofrimento e vão querer descontar em alguém; anestesias dadas nunca são suficientes para evitar sentir dor, mas a dor é normalizada no corpo feminino; mulheres são envergonhadas e vistas como putas se andarem um bocado mais descobertas porque assim querem, mas a sociedade adora que se veja o corpo feminino sem a própria mulher querer - ou seja, adora sexualizar mulheres mas despreza mulheres que se sexualizam ou se sentem bem no próprio corpo ao ponto de não o querer esconder; exames invasivos são vistos como rotina; damn, há até algumas operações que só são autorizadas a homens trans que se calhar algumas mulheres poderiam querer, mas pura e simplesmente não é permitido às mulheres que tomem decisões acerca do próprio corpo, mt menos decisoes que as tornem "menos mulheres" aos olhos da sociedade - se fosse para aumentar as mamas ou coisa assim já seria permitido...

E se calhar ainda podia continuar a lista. É algo que me frustra imenso e cada vez sinto mais que uma das únicas razões pelas quais eu tenho interpretado o meu género como sendo mais feminino é a conexão que eu sinto com essa experiência toda que partilho com mulheres. (E com o facto de nem sempre dar para falar disto em público, ou porque é tabu, ou porque mt gente vai considerar drama feminista, sei lá... às vezes até porque outras mulheres são tratar como algo "normal" - enfim, experiência partilhada na mesma). Pk fora isso, eu para aí no ultimo ano só me senti mulher 2 vezes, e sei exatamente quando foram, portanto nem diria que o meu género é tão feminino como dantes pensava. Em todo o caso só queria resmungar.